quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Valmir estará hoje na Audiência Pública em Defesa das Liberdades Democráticas

O candidato a governador de Santa Catarina pelo PSOL, Valmir Martins, marcará presença hoje à noite em uma Audiência Pública em defesa das liberdades democráticas.

Valmir irá a Audiência para prestar apoio a iniciativa que salienta a importância da liberdade em um Estado democrático. O candidato se declara contrário a criminalização e repressão dos movimentos sociais e sindicais.

Abaixo, uma cópia da Convocatória da Audiência:


AUDIÊNCIA PÚBLICA EM DEFESA DAS LIBERDADES DEMOCRÁTICAS
19 de agosto, 18h30, no Auditório Antonieta de Barros
Assembléia Legislativa de Santa Catarina



Convocatória


"Em Santa Catarina, a repressão às manifestações públicas dos cidadãos, particularmente aos movimentos sociais organizados, se torna cada vez mais violenta e freqüente.

Trabalhadores rurais são ameaçados de expulsão e despejados de terras que poderiam ser suas por direito. Empresários contratam jagunços que ameaçam idosos, mulheres e crianças. O Estado, ao invés de impedir tais situações, usa da polícia para reforçá-la, como ocorreu recentemente em Taió e Imbituba.

Estudantes de Florianópolis há mais de cinco anos lutam contra o aumento da tarifa e pelo passe livre. A tarifa hoje de R$2,95 (em dinheiro) e R$2,38 impossibilita inúmeras famílias pobres enviar todos os seus filhos para escola e garantir outros elementos de subsistência. No entanto, a prefeitura utiliza todo o aparato policial para reprimir os estudantes e assim garantir o lucro das empresas do setor de transportes. Em 2010 mais de 20 presos (que sofrem inquéritos), com a UDESC e a UFSC invadidas. Essa realidade se repete todos os anos e nada acontece aos responsáveis por arbítrios que nos lembram a Ditadura Militar.

Em algumas empresas, os trabalhadores organizam chapas para seus sindicatos na clandestinidade, sofrendo com pressões de todas as ordens, inclusive de jagunços. O direito de greve não tem sido respeitado, pois sempre que elas acontecem os diretores dos sindicatos são processados. Acordos, mesmo assinados, não são cumpridos.

Inclusive os policiais sofrem repressão. Desde dezembro de 2008, 21 praças, participantes da APRASC, foram expulsos da PM por lutar por melhores condições de vida. Uma lei nacional anistia a eles e a outros no Brasil, mas o governo de Santa Catarina se nega em cumpri-la.

Em 2009 o Comandante da PM da Capital afirmou publicamente: “eu combato os movimentos sociais”. Ele continua no posto."

terça-feira, 27 de julho de 2010

Valmir Martins concede entrevista ao Canal Rural

O candidato a governador do PSOL, Professor Valmir Martins, concedeu entrevista ao Canal Rural, do grupo RBS, no dia 22 de julho. A intenção do canal era saber as propostas do candidato sobre o agronegócio.

"O agronegócio não é o negócio do PSOL", afirmou Valmir. A entrevista deve ir ao ar nessa semana.

Entrevista na íntegra do candidato Valmir Martins ao Diário Catarinense

Leia entrevista completa do candidato Valmir Martins (PSOL) ao Diário Catarinense. A entrevista completa foi publicada apenas no site do jornal.

Diário Catarinense - Objetivamente, quais são seus planos para a descentralização administrativa? O modelo continua? As 36 regionais serão mantidas?

Valmir Martins - A chamada "descentralização" do governo LHS constituiu-se em um verdadeiro fracasso. A única coisa descentralizada em SC foram os cargos comissionados nas secretarias de desenvolvimento regional, que se tornaram verdadeiros comitês eleitorais permanentes. Para se reeleger, LHS ampliou o número de SDRs de 28 para 34, se tornando o Estado com o maior número de secretarias de primeiro escalão do Brasil. Nosso estado tem mais secretarias de primeiro escalão do que Rio Grande do Sul e Paraná somados. Isso é um absurdo. Toda essa estrutura não traz nenhum benefício imediato para a população e consumirá, somente em 2010, meio bilhão de reais. Nós vamos extinguir as SDRs e seus cargos comissionados para investir esses R$ 500 milhões em saúde e educação. Nossa obrigação é construir estruturas democráticas duradouras. Estruturas que resistam ao tempo. Que possibilitem a dominação popular.Estou falando de empoderamento popular.

DC - Cidades como Joinville enfrentam um drama com a falta de médicos e de leitos em hospitais públicos. Que tipo de parceria pode ser feita com os municípios para resolver esse problema? Repassar a gestão para organizações sociais pode ser uma solução?

Martins - Nós do PSOL somos contra a gestão por organizações sociais. Via de regra, todos os serviços públicos que caíram nas mãos de OSs e ONGs acabam virando local para lavagem de dinheiro. Nós temos que diminuir o tamanho do estado nos altos escalões do governo e aumentar o estado na base, nos serviços públicos. Voltando ao caso das SDRs, se elas fossem extintas, já teríamos uma boa quantia de dinheiro para investir no sistema. Ainda assim não seria suficiente. Vamos combater a terceirização e a privatização e criar plano de carreira para os servidores.

DC - A chamada ambulancioterapia é tema de campanha desde 2002. Como efetivamente descentralizar os tratamentos de alta complexidade?

Martins - O problema é que a ambulancioterapia não trata dos grandes problemas. Ela trata de todos os problemas. Vocês sabiam disso? Ela na verdade se perde diante de todos os problemas e não trata de fato de nenhum. É preciso implantar de fato o Sistema Único de Saúde em sua plenitude. São precisos mais médicos e muito mais enfermeiras, fisioterapeutas, farmacêuticos, bioquímicos e muitos agentes de saúde. Além deles, precisamos de remédios básicos e sem burocracias, e equipamentos para investigar doenças e tratar pacientes. É isso que eles são: muito pacientes para o meu gosto e pelo tempo que conseguem esperar vivos sem se rebelarem. Um sistema público de saúde do porte do SUS precisa de muito, muito investimento. Por isso, não existe a menor possibilidade do governo do Estado resolver esse problema sozinho. Não há dinheiro para isso. Agora, veja a questão. As prefeituras são obrigadas, por lei, a investir 15% do seu orçamento em saúde. Os governos estaduais também são obrigados, por lei, a investir 12% em saúde. Então porque o governo federal executou, em 2009, apenas 4,64% de seu orçamento em saúde? Porque não há lei que obrigue o governo federal a investir no SUS. Isso é um absurdo. O Congresso Nacional aprovou em setembro do ano 2000 a Emenda 29, que obrigava o financiamento tripartite do SUS em índices razoáveis. Mas nem os governos do PSDB nem do PT regulamentaram a emenda. Só poderemos, de fato, fazer uma boa gestão do SUS com melhores serviços quando o governo federal se comprometer a gastar pelo menos 10% do orçamento federal com saúde. Isso ainda não irá resolver o problema do SUS, mas com certeza elevará o patamar do sistema consideravelmente.

DC - Santa Catarina tem 14 mil presos e 7 mil vagas em presídios. Como avançar na criação de mais vagas? O que falta?

Martins - Pelos dados que você apresenta, nós temos 100% de superlotação nos presídios. Isso se dá, primeiramente, porque o pobre que é preso em Santa Catarina não consegue acesso gratuito à Justiça. Somos o único Estado do Brasil onde não há defensoria pública. Isso é um crime contra o cidadão, além de inconstitucional. Nossa primeira ação, portanto, é criar a defensoria pública no estado. Outro dado importante: segundo o Ministério da Justiça, metade da população carcerária do Brasil - cerca de 200 mil pessoas - são presos provisórios, que esperam o julgamento de um habeas corpus para responder em liberdade até que haja julgamento. Mas porque isso não ocorre? Quando prenderam o banqueiro Daniel Dantas, acusado de inúmeros crimes, ele conseguiu dois habeas corpus em menos de 48 horas. Esse é o segundo problema: a Justiça no Brasil, via de regra, só funciona para os ricos. Temos milhares de presos por pequenas infrações que poderiam estar aguardando o julgamento em liberdade, mas permanecem presos. Temos que modernizar e despolitizar o judiciário catarinense,principalmente o TJ. O PSOL tem a convicção de que o problema está no tipo de sociedade em que vivemos. Ela é uma sociedade que, de um lado, concentra a renda, e de outro, distribui a miséria e a fome. É a nossa sociedade que constrói a violência. Os seres humanos são capazes de construir um outro mundo onde a violência como conhecemos hoje possa ser desconstruída. A educação, a saúde e a cultura precisam estar no centro de nossas políticas.

DC - A gestão de Casan e Celesc precisa ser despolitizada? Como? A Celesc pode ser privatizada?

Martins - A gestão das estatais em Santa Catarina precisa atender aos interesses públicos. Não aos interesses dos políticos de plantão, tampouco aos interesses do setor privado que clama pela privatização tendo como justificativa os desmandos praticados por sucessivas gestões da CASAN e CELESC. A privatização das estatais ao contrário de garantir os interesses públicos, visa manter os atuais interesses de grupos que dominam a máquina estatal em Santa Catarina. Defendemos que a CASAN e CELESC tenham sua gestão democratizada e voltada aos interesses do povo. Para tanto devem ser implantados modelos de gestão transparente onde a sociedade catarinense possa ter acesso a metas pré estabelecidas em Planejamento Estratégico.

DC - De que forma o governo estadual pode pressionar o federal para que obras como a BR-101 sejam concluídas? Como avalia os investimentos dos vários PACs em Santa Catarina?

Martins - O governo estadual deve prestar contas á sociedade catarinense da programação dos investimentos da esfera estadual e federal em Santa Catarina. Não há como o governo estadual cobrar agilidade em Brasília apenas em mesas de negociação com as bases dos partidos aliados. A sociedade deve ter acesso ao conjunto das informações para que possa pressionar as metas estabelecidas. Se os processos burocratizados emperram o cronograma de entrega das obras isto ocorre porque a população não tem qualquer informação destes desmandos. Somente uma sociedade informada e participativa poderá alterar o atual procedimento de decisão dos investimentos públicos. A primeira crítica aos investimentos do PAC é que partem de uma lógica adequada: definir um plano global de investimentos, mas na prática o que vemos é que se construiu um processo engessado e sem controle social efetivo. O que vemos são controles setorizados que não permitem uma avaliação global da sociedade sobre a efetividade dos vários programas.

DC - Qual será a política tributária que será adotada pelo seu governo. Vai aumentar alíquotas do ICMS, IPVA e outros impostos, manter ou reduzir?

Martins - O problema dos impostos é a reforma tributária. Entra governo e sai governo e a reforma não acontece. Por quê? Nós defendemos a tributação das grandes fortunas. A direita defende a proteção das grandes fortunas. Como quem tem dinheiro elege quem quer, a reforma não acontece. O povo precisa ver isso. Tomemos o caso do estaleiro da OSX. Por que criaram o "Fórum Parlamentar em defesa do Estaleiro"? O interesse é na grana que o Eike Batista pode dar para as campanhas eleitorais. Tá todo mundo de olho grande. Já viram que ele deu R$ 1 milhão pro Lula e vai dar R$ 1 milhão para a Dilma e mais R$ 1 milhão para o Serra. É muito milhão. Você que esta lendo esta matéria acha que eles vão fazer uma reforma tributária para tributar as grandes fortunas? Pense nisso.

DC - Frequentemente os atrasos em obras de infraestrutura são justificados por questões de licenciamento ambiental. Agora, discute-se a instalação do estaleiro da OSX em Biguaçu e novamente a questão ambiental é colocada como entrave. Até onde o senhor acredita que dá para ceder na questão ambiental em nome de
grandes projetos?

Martins - A fala dos empresários e seus representantes políticos no governo, particularmente nos últimos anos, é carregada de ódio de classe, contra aqueles que levantam o problema ambiental, quando verdadeiramente ele existe. A própria imprensa, muitas vezes, reproduz a fala dessa gente como verdade absoluta. É o caso, da tentativa do mega bilionário Eike Batista que deseja construir, a qualquer preço, um estaleiro em Biguaçu, na Grande Florianópolis. A imprensa, insistentemente, procura veicular a idéia de que existe unanimidade em favor da construção do empreendimento. Isso não é verdade. Pesquisadores, entre eles muitos reconhecidos até internacionalmente, o próprio ICMBio, lutadores sociais e, parte da população atingida, quando chamados a manifestarem-se, considerando os danos ambientais irreparáveis, permanentes e não mitigáveis, colocaram-se contra o empreendimento. O estaleiro irá comprometer três reservas ambientais, além de todo o ecossistema da região. A pesca artesanal, a maricultura, a ostricultura, a aquicultura em geral e a extração de berbigão serão também duramente atingidas. O turismo e as praias no entorno sofrerão danos incalculáveis. O que fazem os políticos em geral e os candidatos a governador em particular? Formaram um "Fórum em defesa do Estaleiro da OSX "e juntaram-se aos empresários com o intuito claro de desrespeitar o parecer técnico do ICMBio, órgão do Ministério do Meio Ambiente em Santa Catarina responsável pela análise do EIA/RIMA. Prontamente pressionaram o Ministério do Meio Ambiente, que chamou para si, a responsabilidade de tal análise. Por quê? Pelos belos olhos do mega empreendedor? Não! É pelo dinheiro que ele já investiu em suas campanhas eleitorais e pelo que promete investir na atual campanha. R$ 1 milhão para Serra, R$ 1 milhão para Dilma mais recursos financeiros para as campanhas de candidatos nos Estados. Nossa posição política é outra. A decisão técnica de profissionais pesquisadores sobre danos ambientais tem que ser respeitada.

DC - Quais os planos para a prevenção de tragédias como as que aconteceram em 2008?

Martins - O caso recente de Anitápolis é um caso emblemático. Ali estão presentes vários fatores que contribuíram para a tragédia ser maior do que realmente poderia ser. Em primeiro lugar, tem o caso da ligação asfáltica entre Anitápolis e Rancho Queimado. Todos os últimos governos sabiam da reivindicação da obra. Prometeram e não cumpriram. Quando começaram as obras, pararam na metade. Não tomaram cuidados com os cortes nos morros e prepararam, na verdade o morro para quedas de barreiras. Onde constantemente cai barreira não fazem obras significativas de contenção. Apenas desobstruem a via e deixam tudo como dantes. Nova chuva, nova queda de barreira. Isso dá lucro para quem contrata os serviços de empresas privadas para mitigar o alcance do problema. No centro da Cidade uma pessoa morreu. Foi arrastada pela terra que desceu do morro sobre seu barraco. Ali foi feita uma grande obra de contenção que já se sabia que não ia funcionar. Alguém ganhou dinheiro e não resolveu nada. Até hoje o problema esta lá. De outra forma, o Município de Anitápolis é um município muito importante para Santa Catarina devido sua localização e suas características geográficas. Predomina a pequena produção agrícola, que conta com uma péssima assistência. Ali esta acontecendo um êxodo rural intenso. Quem fica esta derrubando a mata e plantando pinus e eucalipto. Os que vem de fora para investir na produção fazem o mesmo. Ninguém esta prestando atenção nisso. Os governos estão ausentes ou coniventes. A Polícia Ambiental é um desastre. Resultado: destruição do meio ambiente e a praga do pinus esta espalhada. O pinus não segura a terra. O pinus é uma espécie invasora e dominante e aos poucos vai se espalhando na região em detrimento da mata nativa. Quando vem muita chuva, ou temos deslizamentos de terra de proporções catastróficas ou temos erosão e assoreamento dos rios, prolongando o problema para outros municípios como Braço do Norte e Tubarão. O governo tem que se fazer presente nas regiões e discutir os rumos que estamos seguindo. Só com organização da sociedade e controle popular, vamos poder controlar melhor o problema e mitigar seus efeitos.

DC - O que acha da pensão concedida aos ex-governadores. Pretende manter, extinguir, modificar?

Martins - A pensão paga aos ex-governadores será extinta. Ela é altamente imoral e onera os cofres públicos. A era Luiz Henrique inaugurou o uso político das pensões, virou moeda de troca. LHS renunciou seu mandato de governador em abril de 2006, deixando pensão vitalícia para Eduardo Pinho Moreira, que governou apenas oito meses. E LHS repetiu o gesto agora com Leonel Pavan (PSDB). Não dá para ficar pagando aposentadoria para quem assume o governo do Estado apenas por alguns meses. Isso tem que acabar.

DC - Sem estrutura partidária ou coligações e pouco tempo de televisão, o que motiva o senhor e o partido a disputarem o governo estadual?

Martins - Nossa motivação em participar das eleições é quebrar o silêncio imposto pelos partidos da ordem. Veja você. Quais as grandes diferenças nos projetos de Dilma, Serra ou Marina? Quais as grandes diferenças de projeto entre Angela, Ideli, Colombo? Ninguém está discutindo o que realmente importa. Hoje, as eleições se tornaram a disputa do poder pelo poder. Por isso, estamos no PSOL. Somos pequenos em números e em estrutura, mas grande em objetivos, ideias e projetos. Participamos das eleições para resgatar alguns valores antigos na política, mas ao mesmo tempo, para criar o novo, criar novas ferramentas para a luta popular. Nós, socialistas, devemos participar das eleições para mostrar que o mundo pode ser diferente. A eleição é um momento privilegiado para conversarmos com a população sobre a barbárie que a nossa sociedade está produzindo e sobre o futuro que queremos. Essa é razão e a motivação de nossa campanha.

DC - Em 2006, o candidato do PSOL ao governo não recebeu 10% dos votos que Heloisa Helena (PSOL) conquistou aqui no Estado, na disputa presidencial. Este ano, sem a presença dela, as condições não são ainda piores para o partido crescer?

Martins - Uma campanha eleitoral para os socialistas é sempre adversa. O que muda são os diversos graus de dificuldades. A primeira e maior de todas é a própria história política do país. São mais de 500 anos de dominação e de exclusão. Construiu-se nestes anos a ideia de que a política é para os políticos, de preferência para os filhos da classe dominante. A organização popular e seus problemas sempre foram e são tratados como caso de polícia. Que pobre não pode fazer política porque pobre não tem dinheiro para atender aos eleitores. Essa cultura é uma cultura criminosa que estamos enfrentando. Outro problema é o financiamento de campanha. Estamos na luta em defesa do financiamento público de campanha. Empresário que bota grana em campanha depois vai atrás do troco. O barato acaba saindo caro para a sociedade. A disputa é desigual, como desigual é a sociedade. O nosso problema é muito maior do que a ausência de Heloisa Helena na campanha. Este é um problema menor, um detalhe. O Plínio é um grande companheiro e tocará nas feridas do sistema. Vai falar da reforma agrária, da redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais, da dívida pública brasileira, da saúde e da educação. Quem não o conhece vai conhecê-lo e admirá-lo. É claro que a classe dominante não vai gostar do que ele vai falar. Nosso problema é o uso desigual dos meios de comunicação. Os tempos são diferentes de presença em rádios, TVs e jornais. Por quê? Porque quem faz as leis pensa em proteger a si próprio e garantir-se, criando dificuldades para a oposição e os chamados pequenos. Que democracia é esta? É a democracia que visa manter tudo como está.

Valmir Martins: tudo pela luta popular

Candidato do PSOL ao governo de Santa Catarina quer a extinção das secretarias regionais

O candidato do PSOL ao governo de Santa Catarina, Valmir Martins, defende que a descentralização administrativa é um "verdadeiro fracasso". Em entrevista ao Grupo RBS, o candidato diz que a estrutura não traz benefícios e que, se eleito, irá extinguir as secretarias regionais.

Valmir também apresenta suas opiniões sobre temas como a gestão das empresas públicas e as controvertidas pensões dos ex-governadores catarinenses. Ele defende a construção de estruturas democráticas que possibilitem a dominação popular:

— Pobre não pode fazer política porque pobre não tem dinheiro para atender aos eleitores. Essa cultura é uma cultura criminosa que estamos enfrentando.


Na entrevista, o concorrente também expõe suas posições a respeito de temas polêmicos, como a possibilidade de união e adoção de crianças por pessoas do mesmo sexo (veja quadro abaixo).

Mestre em História, o candidato do PSOL é professor aposentado da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Já participou do processo eleitoral, como candidato ao Senado, em 1982; a deputado federal, em 1987; e a vereador da Capital, em 1989.

Veja a nuvem formada pelas palavras que Valmir mais usou durante a entrevista (clique na imagem para aumentá-la). As que aparecem em tamanho maior são as que foram citadas com mais frequência:

Wordle: Martins

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Os partidos não têm dado conta da tarefa

Para Ivan Valente, apesar da dura realidade das condições de vida da maioria do povo brasileiro, não há um processo de indignação organizada em marcha

21/07/2010

Nilton Viana

da Redação

É necessário aprofundar o conhecimento da nossa realidade e a relação da esquerda com as mais profundas reivindicações do povo brasileiro por mudança social. Esta é uma das constatações do deputado federal Ivan Valente (Psol-SP). No entanto, segundo ele, é preciso entender que estamos numa realidade mutante, com a rapidez trazida pela globalização e a velocidade das comunicações.

Em entrevista ao Brasil de Fato, Valente defende que a falta de um forte movimento social e a desmobilização da força social de mudança, que ocorreu neste período – aliadas à fragmentação e à ainda pouca expressão de outras candidaturas de esquerda – realçam o quadro de dificuldades de uma alternativa verdadeiramente de esquerda que acumule rapidamente na direção da transformação social. Para ele, os partidos políticos não têm dado conta dessa tarefa, ou por opção ou por falta de condições objetivas e também erros de avaliação. E afirma: a unidade das forças populares é uma questão vital no processo de luta de classes.

Brasil de Fato – Como parlamentar, você tem acompanhado as proposta de alteração do Código Florestal brasileiro. Quais os interesses em jogo nesse debate?

Ivan Valente – Está em curso no país uma tentativa perigosa que pode reverter mais de cinco décadas de legislação ambiental no Brasil. O relatório final apresentado pelo deputado federal Aldo Rebelo [PCdoB-SP] e aprovado na Comissão Especial do Código Florestal, se passar pelo Plenário da Câmara, representará um verdadeiro retrocesso na proteção do meio ambiente em nome dos interesses dos ruralistas. O texto aprovado comprova a farsa do desmatamento zero que os ruralistas pretendem fazer crer a população. Fica explícita a autorização para novas derrubadas de árvores, nos mais diferentes biomas. O texto também possibilita a anistia completa aos desmatadores que cometeram infrações antes de 2008. Ou seja, premia aqueles que historicamente desrespeitaram o meio ambiente, além de insinuar que desenvolvimento só se faz com destruição da natureza.

As mudanças propostas partem de premissas equivocadas para defender uma brutal mudança na legislação ambiental e colocar o Brasil no rumo do atraso e da devastação. Entre elas, a necessidade de ampliar a produção de alimentos para o mercado interno, o que justificaria a ocupação de todas as áreas agricultáveis do território nacional – inclusive as de reserva legal e de proteção permanente. A verdade é que precisamos de outro projeto de desenvolvimento. Nossas florestas não são balcões de negócio, são bens de interesse comum.

Como você vê o projeto que regulamenta os impostos sobre as grandes fortunas?

O imposto sobre as grandes fortunas está previsto na Constituição de 1988, mas nunca foi regulamentado. Pelo projeto do Psol, aprovado na Comissão de Constituição e Justiça em junho, o piso para a cobrança seria de R$ 2 milhões, definindo como patamar de fortuna. As alíquotas seriam de 0,3% para patrimônios acima de R$ 2 milhões; 0,7% para patrimônios acima de R$ 10 milhões; e 1% para patrimônios acima de R$ 50 milhões. O objetivo é desonerar o consumo de bens pela população mais pobre, como medicamentos e itens da cesta básica, mudando o paradigma brasileiro e atendendo o princípio da capacidade contributiva, ou seja, quem tem mais deve pagar mais.

Segundo o Ipea [Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada], os 10% mais ricos concentram 75% da riqueza do país. Eles também são os que menos pagam impostos proporcionalmente à sua renda. Dados da Receita Federal divulgados recentemente mostram que a arrecadação do país cresceu justamente devido aos tributos que incidem sobre o consumo e a renda do trabalho. Já os tributos incidentes sobre a renda do capital caíram R$ 131 milhões. Ou seja, a carga tributária brasileira é alta e mal distribuída. É urgente tributar de forma mais forte a riqueza e a propriedade, para poder tributar menos o salário e o consumo.

O problema é que, no Congresso, o capital é que manda. Historicamente, os donos das grandes fortunas impediram que esse imposto entrasse em vigor. As dificuldades começaram na Assembleia Constituinte, em 1988. Enquanto outros imposto, como o de renda, podem ser regulados por lei comum, esse precisa de uma lei complementar, que tem tramitação especial e precisa ser aprovado em plenário por 2/3 dos deputados. É uma batalha, portanto, que está apenas começando, mas estratégica para o país.

E seu projeto de lei que proíbe o capital estrangeiro nas instituições educacionais?

Nosso projeto de Lei nº 2.138/2003, que proíbe o capital estrangeiro nas instituições educacionais brasileiras com fins lucrativos, parte de um princípio básico, fundante da nossa nação: educação não é mercadoria. A Constituição Federal, em seu artigo 205, afirma que a educação é um direito de todos e um dever do Estado e da família. No entanto, a educação brasileira vem sendo desnacionalizada, reforçando e ampliação e a mercantilização do ensino.

Hoje, as empresas que buscam entrar nas instituições de ensino querem é fazer negócios, não possuem um projeto educacional e, por isso, não primam pela qualidade do ensino, só pelo valor das mensalidades. Nossas universidades não podem se sujeitar a imposições do capital privado estrangeiro. O capitalismo tem uma ideologia bastante diferente, em desacordo com o projeto de nação que queremos construir. Daí a importância desse projeto. Por conta de manobras de grupos detentores do capital, o PL está parado na Comissão de Educação e Cultura, mas vem ganhando apoio entre setores da esquerda, e a luta é para aprová-lo o quanto antes.

Passada a Copa, é hora do país encarar seus graves problemas. E teremos pela frente eleições para cargos importantíssimos, como o de presidente da República, Congresso Nacional, governos estaduais e assembleias legislativas. Como você avalia o atual quadro eleitoral?

Vemos uma superpolarização pelo alto, entre as candidaturas do PT e do PSDB. São projetos que não têm diferenças essenciais no tocante à política econômica e à forma como sustentam a governabilidade, com alianças heterodoxas, pautadas pelo abandono de um projeto de transformação social mais profunda no nosso país. Embora haja diferenças entre os dois, particularmente na política internacional e em algumas políticas compensatórias. A opção Marina Silva [PV] não consegue ser alternativa porque não se propõe, não tem condições nem movimento social por trás para polarizar essa disputa. Já o Psol, apesar de ser um partido em construção, tem uma proposta alternativa de transformação social baseada num programa capaz de empolgar grandes setores da população, trabalhando com ética na política e acreditando na força dos movimentos sociais e da participação popular. Temos demonstrado isso na prática, com nosso programa, conduta e esforço organizativo.

Pela primeira vez, desde a redemocratização do país, a esquerda irá enfrentar uma eleição em que Lula não será candidato. E desde 1989, a eleição de Lula tem sido um fator de unidade da esquerda, sobretudo antes de 2002. Como você avalia esse cenário?

A saída de Lula do cenário político, com todo seu carisma e simbologia, deixa mais nítidas as propostas em jogo. As relações do PT com o grande capital – assim como da oposição de direita, capitaneada pelo PSDB, que também disputa ser a representação do grande capital e da política econômica neoliberal – mostram que os projetos são semelhantes. Eles continuam comprando a confiança do mercado a um preço muito alto para a classe trabalhadora. Não é à toa que a campanha Dilma coloca Palocci como seu grande articulador, e os tucanos tentam exacerbar ainda mais a política do Estado mínimo. A consequência direta dessa opção do governo Lula foi uma parte da esquerda buscar novas saídas para a efetivação do programa que incendiou corações e mentes ao longo de duas décadas. O Psol é consequência dessa ruptura.

Ao que tudo indica, no atual cenário eleitoral, não há nenhuma perspectiva transformadora, anticapitalista, capaz de enfrentar os grandes desafios do ponto de vista da esquerda. A fragmentação da esquerda favorece esse quadro?

Num país como o nosso, de grande concentração de renda, terra, riqueza e poder, políticas sociais de baixa intensidade têm um efeito considerável de conformação social, que dá ao governo o mote continuísta. A falta de um forte movimento social e a desmobilização da força social de mudança que ocorreu nesse período– aliadas à fragmentação e à ainda pouca expressão de outras candidaturas de esquerda – realçam o quadro de dificuldades de uma alternativa verdadeiramente de esquerda que acumule rapidamente na direção da transformação social. O que não invalida nem desmerece o esforço necessário que vem sendo feito por vários setores da esquerda – particularmente do Psol – de tentar resgatar um programa e uma prática transformadora capaz de mobilizar o povo e apontar rumos para o socialismo.

Quais são, na sua avaliação, os principais problemas do povo brasileiro e quais desafios estão colocados hoje para a esquerda?

Problemas estruturais, como a falta de um sistema nacional de educação, com um plano nacional e investimento maciço na educação pública, mostram nosso imenso atraso ainda na questão do ensino, no qual os avanços foram ínfimos. Basta ver o valor do piso nacional dos professores, estabelecido no governo Lula, e a manutenção dos vetos ao gasto público de 7% do PIB para o setor, feitos por FHC. Já na saúde, permanece o sucateamento do SUS, o avanço do setor privado, da terceirização e a falta de recursos públicos, além da não regulamentação da emenda 29.

Outro problema central é a não efetivação da esperada reforma agrária. O governo Lula, pela governabilidade, cede sempre ao agronegócio e aos ruralistas. Enquanto isso, 36% do orçamento da União em 2009 foram gastos no pagamento de juros e amortizações da dívida pública, enquanto a educação recebeu menos de 3%; a saúde, menos de 5%; e a reforma agrária, menos de 0,1%. Inverter prioridades e favorecer de fato a área social, que garante direitos, e a infraestrutura do país, que gera emprego e distribui renda, é um dos maiores desafios da esquerda.

O PT construiu, em 1986, o Programa Democrático Popular. Você considera esse programa atual?

O Programa Democrático Popular é um patrimônio da esquerda brasileira. Uma proposta que defende reforma agrária; democratização radical dos meios de comunicação de massa; direitos sociais dos trabalhadores; distribuição de renda como alavanca de outro projeto de desenvolvimento, para romper a dependência; suspensão do pagamento da dívida pública, com auditoria para inverter a lógica de predomínio do mercado sobre a vida dos cidadãos; defesa da soberania nacional e política anti-imperialista, controle de setores estratégicos pelo Estado; desenvolvimento sustentável e política ambiental, visando o futuro, e não as necessidades imediatas do sistema agrícola e agrário de exportação de commodities; promoção e garantia dos direitos humanos e da diversidade cultural do país; e combate a todas as formas de opressão. Tem uma imensa radicalidade para atacar as bases do atual sistema, organizar e mobilizar o povo e abrir portas para a superação definitiva das iniquidades capitalistas, rumo a uma sociedade com justiça e igualdade social. A América Latina, com exemplos sobretudo da Bolívia, Venezuela, Equador e Paraguai, tem demonstrado a imensa atualidade desse programa.

A esquerda brasileira tem o conhecimento verdadeiro da realidade social do país?

Grandes estudiosos, pensadores partidários e intelectuais orgânicos como Florestan Fernandes, Celso Furtado, Caio Prado Junior, Paulo Freire, Antonio Candido e Darcy Ribeiro nos forneceram bases e contribuições importantes para o conhecimento da realidade brasileira. Aliado às experiências e história de luta da classe trabalhadora e às lutas de resistência do povo brasileiro, esse conjunto de ideias são um excelente ponto de partida para a esquerda. É preciso entender, no entanto, que estamos numa realidade mutante, com a rapidez trazida pela globalização e a velocidade das comunicações. Isso reforça a necessidade de aprofundar o conhecimento da nossa realidade e a relação da esquerda com as mais profundas reivindicações do povo brasileiro por mudança social.

A seu ver, os instrumentos políticos da esquerda brasileira hoje, principalmente partidos políticos, têm sido capazes de fazer frente à atual realidade brasileira?

Apesar da dura realidade das condições de vida da maioria do povo brasileiro, não há um processo de indignação organizada em marcha. Os partidos políticos não têm dado conta dessa tarefa, ou por opção ou por falta de condições objetivas e também erros de avaliação. É preciso levar em conta o nível de organização e consciência real dos trabalhadores, se engajar nas lutas que movimentam o povo em torno de direitos e, num processo pedagógico de luta, mobilização e organização, atingirmos um patamar de pressão social capaz de viabilizar mudanças sociais sempre prometidas e nunca realizadas em nosso país.

E como você vê a atuação dos movimentos sociais no Brasil frente a esse cenário?

O Brasil viveu, nos anos de 1980, um momento importantíssimo de ascenso dos movimentos populares e sociais e da sua organização, com a formação da CUT e do próprio PT. Foi um momento significativo de acumulação de consciência e força social. Posteriormente, vivemos um período de declínio, e hoje o que existe de fato, no geral, é uma baixa dos movimentos sociais – apesar de significativos momentos de resistência, seja na luta pela reforma agrária, contra a lógica do Estado mínimo, com greves e mobilizações, na luta por garantia de direitos e contra a discriminação, ainda insuficientes para uma arrancada rumo a transformações sociais mais profundas. Isso só reforça o papel dos setores de vanguarda e dos movimentos sociais na construção desse processo.

Como avançar na unidade das forças populares?

A unidade das forças populares é uma questão vital no processo de luta de classes. Mas a construção da unidade é um processo que deve aliar tolerância política, sabedoria, manutenção de princípios, vontade política, acreditar na democracia, na tomada de decisões e consciência de que, com o crescimento das lutas, a unidade se torna mais imperiosa e aumenta a responsabilidade de cada força política na construção dos interesses sociais e nacionais. Os verdadeiros socialistas devem perceber que o fato de vivermos um momento de descenso aumenta nossa responsabilidade com a construção de um futuro que interessa a todo o povo brasileiro.



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Ivan Valente é deputado federal por São Paulo e líder da bancada do PSOL (Partido do Socialismo e Liberdade) na Câmara dos Deputados. É titular da Comissão de Relações Exteriores e suplente da Comissão de Defesa do Consumidor. Integra a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do MST, a Comissão Especial do Código Florestal e foi proponente da CPI da dívida pública. Compõe a Direção Nacional do PSOL.

http://www.brasildefato.com.br/v01/agencia/entrevistas/os-partidos-nao-tem-dado-conta-da-tarefa/view

sábado, 24 de julho de 2010

O Estaleiro da OSX e o silêncio da UFSC

Circulou amplamente na imprensa a notícia de que uma comitiva de SC deslocou-se até Brasília para pressionar o Ministério do Meio Ambiente a mudar o parecer técnico do ICMBio (Instituto Chico Mendes), que se posicionou contrário ao projeto de construção do Estaleiro da OSX em Biguaçu. Entre as notícias, houve a menção à representação da UFSC na delegação. Ao que parece, um Professor ligado à Fundação CERTI esteve presente no evento. Como a referida Fundação relaciona-se com a UFSC, é possível que a confusão esteja aí. O fato é que a Reitoria não desmentiu o caso. Com a palavra o Magnífico Reitor Álvaro Prata.

A polêmica em torno do empreendimento megabilionário veio à tona quando a OSX manifestou-se sobre o parecer do ICMBio, autarquia Federal política, técnica e legalmente responsável por se manifestar sobre o EIA/RIMA do projeto, pois nas suas proximidades temos a Área de Proteção Ambiental de Anhatomirim, a Reserva Biológica Marinha do Arvoredo e a Estação Ecológica de Carijós.

O parecer do ICMBio, baseado na análise do EIA/RIMA, produzido por uma empresa contratada pelo Empreendedor, não deixa dúvidas. O ecossistema da região sofrerá danos ambientais “irreversíveis e não mitigáveis”. Além das áreas de responsabilidade do ICMBio, outras serão atingidas, prejudicando a extração de berbigão na Costeira do Pirajubaé, a produção de mariscos e ostras, a pesca artesanal de peixes, camarões e siris, etc.. A balneabilidade da Baia Norte, será atingida de frente, assim como o Turismo. O empreendimento pode inclusive, provocar modificações físicas nas praias. Como se vê, muitos trabalhadores e suas famílias serão duramente atingidos.

Através de seus profissionais, a UFSC tem estudado o ecossistema em pauta, produzindo conhecimentos que demonstram a importância da preservação da área, bem como a sua sensibilidade. Logo, a Reitoria pode e tem o dever de se manifestar sobre o problema, ouvindo previamente os departamentos de Biologia, de Geociências, de Química, de Engenharia Sanitária, de Economia, o Centro de Ciências Agrárias, dentre outros. Depois, com a importância que o caso requer, a Reitoria deve chamar o Conselho Universitário a posicionar-se e buscar ajudar a sociedade a resolver o problema.

A Universidade precisa produzir conhecimento não só para resolver problemas de produtividade dos setores empresarias, mas principalmente para ajudar a construir o futuro a partir dos interesses da maioria da sociedade. Assim, como professor aposentado da UFSC e como cidadão florianopolitano, conclamo os profissionais da Universidade a se manifestarem sobre a questão. Posiciono-me pelo parecer do ICMBio, já divulgado amplamente, contrário ao empreendimento no local proposto.

Não podemos nos calar quando políticos neófitos na questão saem imprudentemente, ou com interesses não expressos, pressionando órgãos técnicos a mudarem seus pareceres construídos a partir de bases científicas. É sabido o que move os políticos que hegemonizam o atual cenário regional e nacional quando defendem esses empreendimentos a qualquer preço. Basta lembrar que Eike Batista já contribuiu com a campanha do presidente Lula e anunciou que vai contribuir com R$ 1 milhão para as campanhas de Dilma, Serra e com campanhas eleitorais nos estados.

Resta saber se a Reitoria da UFSC ouvirá a comunidade universitária e se posicionará sobre a construção do Estaleiro na área proposta ou se permanecerá no silêncio, que, neste caso, não terá nada de inocente, pois quem cala consente.

Valmir Martins

Professor aposentado da UFSC

Os bilhões de Eike e o delírio tupiniquim

Lembro-me, no final dos anos 70, da euforia de mineradores, prefeitos e empresários com o anúncio da aquisição da gigantesca máquina Orion, que multiplicaria por 20 o trabalho que um pequeno equipamento fazia na extração de carvão nas minas do Sul do Estado. O delírio foi inconfundível, de políticos principalmente, apostando na multiplicação de emprego e na redenção econômica da região. Bastaram cinco anos para muitas pessoas chorarem diante da destruição ambiental provocada pela Marion, que foi embora fazer mais estragos em outro lugar.

Floripa vive hoje essa alucinação. Bastou o bilionário Eike Batista anunciar R$ 2,5 bilhões à construção de um estaleiro em Biguaçu para políticos, empresários – e até jornalistas – abraçarem a causa, tripudiando argumentos científicos de estudiosos.

O renomado cientista em zoologia aquática, doutor Paulo César Simões, foi contratado pela Caruso Jr., que, por sua vez, foi contratada pela OSX para elaborar o estudo de impacto ambiental e relatório de impacto ambiental (EIA-Rima) do empreendimento. Mas a OSX, empresa de Eike Batista, não divulgou o trabalho do Dr. Simões, simplesmente porque ele recomenda, em um estudo de 18 páginas, que o estaleiro seja construído em outro local onde haja um complexo portuário, fora de baías ou enseadas, para que os efeitos sejam potencializados. Ele foi claro e objetivo ao afirmar que o empreendimento não devesse ser construído em Biguaçu.

Por que não em Imbituba, por exemplo?

Veja o que o cientista observa em suas conclusões:

- Perda de habitat e degradação ambiental: a dragagem gera uma alteração completa de fundo, uma nova topografia que será danosa aos recursos alimentares do boto-cinza, bem como as condições do habitat. Aponta que os impactos serão gravíssimos, permanentes e irreversíveis.

- Perda sócio-econômica e paisagística: a destruição da fauna de fundo, devido a dragagem, afetará todas as comunidades humanas litorâneas do entorno do empreendimento, principalmente a pesca e a vocação turística de Florianópolis e região.

- Poluição química: aumento de riscos de vazamento de óleo combustível devido a circulação de embarcações, que afetará a cadeia alimentar e as praias e populações da costa continental da Baía Norte, nos casos de vento nordeste. O vento sul lançará óleo sobre praias da Daniela e do Forte e sobre a Estação Ecológica de Carijós e APA Anhatomirim. O óleo das atividades industriais do estaleiro será conduzido ao mar, assim como os resíduos industriais, destacando-se o TBT (tributyltin), procedente de tintas anti-incrustrantes aplicadas nos cascos de navios e plataformas. Essa substância atua diretamente na supressão do sistema imunológico.

- Poluição sonora: a implantação da obra, a dragagem e o tráfego de embarcações geram ruídos prejudiciais aos botos, podendo levar ao abandono da área, por atrapalhar a orientação, a comunicação e a busca de alimentos.

- Pressões sobre a APA de Anhatomirim: sofrerá todos os impactos mencionados, no seu ecossistema como um todo.

Li, recentemente, uma desastrosa observação de um internauta salientando que “há gente defendendo os botos enquanto pessoas morrem de fome”. Sem comentário. Essa comparação extrapola todo tipo de raciocínio.

Será por que os Estados Unidos e a Europa suspenderam a extração de petróleo em mares profundos, perdendo mais de 300 bilhões de dólares por ano? Teria sido por pressão de ambientalista? Não. Prevaleceu a consciência de que projetos não podem vingar mais facilmente diante dos interesses sociais e planetários.

Floripa parece estar perdida, no desespero, querendo abreviar soluções que já deveriam ter ocorrido ao longo dos últimos 30 anos. Parece que retroagimos aos anos 70, quando a sinalização de um grande investimento derrubava tabus e driblava leis, principalmente as do meio ambiente. De repente, às vésperas de uma eleição, políticos, empresários, entidades de classes gritam, a uma só voz, em defesa do estaleiro de Eike Batista, em Biguaçu. Nunca se viu essa unidade político-eleitoral, nem mesmo depois das inúmeras inundações que mataram centenas de pessoas e tampouco para contrapor à bandalheira de algumas empreiteiras na duplicação da BR-101, no Sul. Nunca que políticos, empresários e a imprensa se uniram em defesa de um projeto turístico para a Ilha.

O estaleiro de Biguaçu é mais uma obra avulsa, daquela que se encaixa em qualquer lugar de uma região sem planejamento, sem sonho e nem perspectiva. Ou será que a Grande Florianópolis já sabe o que quer para 2020? Não. A região está adormecida, vegetando no vazio de idéias e de ações.

Os políticos puseram viseira ao se vislumbrarem com os R$ 2,5 bilhões de investimentos do Eike, na esperança de que sejam gerados empregos, riquezas etc. Em países desenvolvidos, os investimentos precisam se compor no ambiente social e econômico. Aqui, pesa o cifrão.

É necessário que paremos de apostar em crescimento acidental. É por isso que a cada final de verão a choradeira é incomensurável, justamente porque Florianópolis, principalmente, continua vivendo do improviso. Ninguém é contra o estaleiro de Eike, mas precisamos dizer ao megaempresário onde que o empreendimento pode ser localizado, para a saúde do meio ambiente e do turismo regional.

Ou será que o morador e veranistas das praias de Jurerê, Canasvieiras, Daniela, de Governador Celso Ramos, Bombas, Bombinhas e de outras passarão a ter uma atração turística? Quem sabe o norte da Ilha terá um motivo para contemplar um belo monumento em sua frente? Será que estaleiro virou atração turística? Deixamos de lado a indústria sem chaminé em nome do Money de Eike!

Imagine, navios trazendo turistas estrangeiros para o Norte da Ilha, tendo o estaleiro do Eike como a grande atração! Reitero que o estaleiro precisa ser viabilizado, mas precisamos pensar na região com um plano estratégico para os próximos 20 anos. Qual a visão de Eike batista da região? Com certeza ele enxerga só o seu empreendimento, mas nós precisamos nos preocupar com a baía, com as praias, com os investimentos turísticos, etc. Ou será que o estaleiro será a redenção de toda a região? Está na hora de fugir à visão tupiniquim e pensar grande, tão grande quanto as potencialidades da Grande Floripa.

Mas, pelo jeito a viseira obliterou o processo decisório. O dinheiro fala mais alto, tanto quanto as esmolas enviadas a milhares de famílias que possam fome no Nordeste. O estaleiro pode até criar 500 empregos, mas isso vai valer a pena para uma região com potencialidades turísticas? O que significará a dragagem da área do estaleiro? O aterro da Baía Sul e o engordamento da praia de Pontas das Canas resultaram nas respostas do mar, que comeu praias, com as de Cachoeira, Casnasvieiras, Cacupé e as do Sul da Ilha. Será que vamos fechar os olhos para os efeitos desastrosos de uma obra que mexerá com todo o ecossistema?

Por favor, a Baía Norte vale mais que R$ 2,5 bilhões e 500 ou mil empregos. Se Eike quer mesmo construir um estaleiro em Santa Catarina há áreas bem mais apropriadas. Imbituba tem tudo o que ele precisa, inclusive um ótimo porto já dragado.

Laudelino José Sardá

Jornalista e professor